O dia em que os portugueses cresceram três centímetros

7 de outubro, Lanzarote, Pilar del Río recebe um telefonema de um amigo, professor na Suécia e ligado à Academia Sueca. Pergunta-lhe por Saramago. Pilar informa-o que o escritor está na Feira do Livro, em Frankfurt, e que regressa no dia seguinte. Perante a insistência de Pilar, quanto ao motivo do telefonema, o amigo informa-a que, no dia seguinte, a Academia Sueca anunciará que o Nobel será atribuído a Saramago. Pede-lhe segredo. Acrescenta que Saramago será informado, telefonicamente, no dia seguinte, quinze minutos antes do meio-dia. A missão de Pilar: garantir que Saramago não embarque no voo que tem agendado, de regresso a casa, sem, no entanto, lhe revelar o motivo.

Nessa noite, Pilar tenta convencer Saramago a ficar, alegando que, se embarcar, perderá o anúncio do Nobel. Não o convence. Ele riposta: ‘E se ficar, perco o Nobel e o avião’.

8 de outubro, Feira do Livro, Frankfurt, a comitiva portuguesa recebe a notícia por telefone, antes de Saramago. Abraçam-se e choram. Alguns representantes dirigem-se ao aeroporto, para tentar impedir que Saramago embarque. 

Aeroporto de Frankfurt, os representantes da comitiva portuguesa são informados que Saramago já havia embarcado. Depois de explicado o motivo, os funcionários aceitam entrar no avião e pedir a Saramago que regresse. Acabou por ser uma assistente de bordo, da companhia aérea Ibéria, a comunicar a Saramago que lhe tinha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura. 

Saramago regressa pela mesma manga em que tinha embarcado. Fez o percurso sozinho, com a gabardine no braço e a pequena mala que tinha levado para um dia de estadia. ‘Não me lembro de nenhum outro momento da minha vida em que tenha sentido isto: a solidão agressiva’, confessou anos mais tarde. Perante o alvoroço e as manifestações de alegria que se viviam no aeroporto, comentou: 

'Deram-me o Prémio Nobel. E quê?’

12:00h, Lisboa, (13:00h em Estocolmo) a Real Academia Sueca anuncia o nome do Nobel da Literatura. O prémio é atribuído a José Saramago, ‘que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia, torna constantemente compreensível uma realidade fugidia’, e entra para a história como o primeiro escritor de língua portuguesa a receber esta distinção.

O MOMENTO DO ANÚNCIO DO PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA ATRIBUÍDO A SARAMAGO, PELA ACADEMIA SUECA.

Feira do Livro, Frankfurt, Saramago regressa ao pavilhão português e enfrenta uma multidão de jornalistas. Há brindes, muitas fotografias e colaboradores do pavilhão português em cima de cadeiras, com uma rosa na mão.

‘Aceitem como vosso um prémio que tem que ser entregue a uma pessoa que o encara como pertencendo a todos’, declara. Era um prémio também para Portugal, num dia em que, nas suas próprias palavras: ‘os portugueses cresceram três centímetros – todos nós nos sentimos mais altos, mais fortes, mais formosos até .’

Depois do anúncio, os nove metros quadrados do stand da Editorial Caminho foram pequenos para acolher todos os que queriam conhecer o Nobel da Literatura. Todos os nomes eram válidos para satisfazer a curiosidade do mundo: “Samarado” “Saranago” ou “Siromago”. O The New York Times esclareceu os seus leitores: “It’s pronounced Saw-ra-maw-go”.

Os meses seguintes foram alucinantes. Choveram solicitações para eventos e felicitações de todo o mundo. A onda de euforia não era, contudo, extensível a todos: o Vaticano, por exemplo, apelidou Saramago de “inveterado comunista”; e o poeta polaco, também detentor de um Nobel, Czeslaw Milosz, declarou: “Confesso que não o suporto”. Alheias a isso, as vendas das obras do escritor disparam.

7 de dezembro, Real Academia Sueca, Estocolmo, Saramago faz o tradicional discurso de laureado.

O DISCURSO PROFERIDO POR SARAMAGO NA CERIMÓNIA DE ACEITAÇÃO DO NOBEL DA LITERATURA.

10 de dezembro, Câmara Municipal de Estocolmo, Saramago recebe, das mãos do Rei Carlos Gustavo XVI da Suécia, o Prémio Nobel da Literatura (um diploma, uma medalha e 7,6 milhões de coroas suecas), e fez um breve discurso, em português.

Saramago revelou, posteriormente, ter oferecido o diploma do Nobel à Biblioteca Nacional, tendo guardado apenas uma cópia.

'‘Aceitem como vosso um prémio que tem que ser entregue a uma pessoa que o encara como pertencendo a todos.’
Marisa Sousa
Coordenadora Editorial