Afonso Reis Cabral vence Prémio Saramago 2019

No dia em que se assinalam exatamente 21 anos sobre o dia em que José Saramago se tornou o primeiro Nobel da Literatura português, foi anunciado o vencedor da vigésima edição do Prémio Saramago, Afonso Reis Cabral. Embora tenha apenas 29 anos, o autor já havia sido reconhecido, em 2014, com o Prémio LeYa, pelo seu romance de estreia O Meu Irmão. Desta vez, deve a homenagem ao seu segundo romance, Pão de Açúcar, obra que António Mega Ferreira, escritor e membro do júri, descreve como “uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos”.

Partindo da história verídica de Gisberta, uma mulher transgénero assassinada no Porto em 2006, Pão de Açúcar entrelaça factos e ficção de forma magistral, resultando num romance vertiginoso e profundamente original. Trineto de Eça de Queirós, Reis Cabral junta-se agora a outros grandes nomes da literatura, sendo que entre os vencedores das edições anteriores encontram-se autores consagrados como José Luís PeixotoGonçalo M. TavaresValter Hugo MãeJoão Tordo ou Ondjaki – o primeiro e, até à data, o único escritor angolano a vencer o prémio. 

O Prémio José Saramago, instituído pela Fundação Círculo de Leitores em 1999, tem um valor de 25 mil euros e distingue bianualmente uma obra literária de língua portuguesa (no domínio da ficção) de um autor com idade não superior a 35 anos à data da publicação do livro. Desta edição, fizeram parte do júri a directora editorial do Círculo de Leitores Guilhermina Gomes, a presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e escritores como Ana Paula Tavares,  António Mega FerreiraNelida Piñon e Manuel Frias Martins

Sobre esta nobre arte que é a da escrita, declarava Saramago: “Dificílimo é o ato de escrever, responsabilidade dos maiores”.

Os testemunhos do JÚRI
ana paula tavares, poeta e historiadora

“Narrado na primeira pessoa, Pão de Açúcar lida com o espesso e confuso mundo da memória e retira do esquecimento acontecimentos que os jornais e os relatórios da polícia tinham tratado de forma redutora e parcial com silêncios e omissões que o autor se propõe aqui revelar. Afonso Reis Cabral apresenta um trabalho de linguagem (com a linguagem) que alerta o leitor para o que muda e permanece na escrita do romance e na narrativa dos universos recuperados. O autor mergulha na opacidade dos diferentes mundos da cidade velados pelo silêncio e pelo estranhamento e trabalha novos conceitos de vida, da morte e do amor tal como as leis da violência os alargam e tornam perceptíveis. (…)”

ANTÓNIO MEGA FERREIRA, ESCRITOR E JORNALISTA

“(…) Revelando maturidade narrativa e estilística notáveis, fazendo da contenção a arma da progressão do relato, Reis Cabral adota o ponto de vista dos miúdos administrando a construção de um sentimento grupal de medo e ódio (as fronteiras entre um e outro são ténues) que descarrega no seu elo mais fraco a raiva de uma frustração longamente contida. A originalidade da narrativa reside precisamente neste ponto de vista, que faz de Pão de Açúcar uma espécie de romance de (de)formação, um texto que relata a formação de um grupo que se reúne num assassinato, na passagem da infância para a adolescência. (…) O narrador não condena nem atenua as culpas: todos as têm, no tecido esgarçado deste romance, que é uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos.”

manuel frias martins, escritor

“(…) Romance compassivo mas nunca sentimental, Pão de Açúcar é de uma parcimónia exemplar no que respeita à linguagem e à imagística, sobretudo face à dramaticidade comovente dos envolvimentos humanos da sua estória. Há uma frescura estilística notável que acaba por equilibrar o próprio potencial trágico da obra, gerando no leitor aquele interesse ou aquele querer saber que nos prende irremediavelmente ao texto que vamos lendo. Este é um livro que nos traz o prazer da literatura pelo mistério de tocar a alma mais pungente da realidade, mantendo-se sabiamente, ao mesmo tempo, dentro das ilusões da ficção. Em suma, este é um grande romance de um jovem autor de quem a literatura portuguesa se pode desde já orgulhar.”