5 curiosidades sobre Friedrich Nietzsche

Considerado, juntamente com Marx e Freud, um dos filósofos da suspeita – caracterizados pelo seu pensamento subversivo em relação à ordem vigente -, o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um dos pensadores mais importantes do século XIX. Para além de filósofo, foi ainda poeta e crítico, sendo as suas obras expressão da crise da razão que tomou a Europa Ocidental de assalto no pós-Iluminismo.

No dia em que assinalamos 175 anos desde o nascimento deste homem controverso que um dia proclamou a morte de Deus, relembramos Nietzsche com cinco curiosidades sobre a sua vida.

‘Pois, creiam-me! — o segredo para colher da vida a maior fecundidade e a maior fruição é: Viver perigosamente! Construam suas cidades próximas ao Vesúvio! Mandem seus navios para mares inexplorados!’

1. deus está morto e quem o matou foi nietzsche

Foi no livro A Gaia Ciência, publicado em 1882, que Friedrich Nietzsche fez uma das suas afirmações mais controversas: “Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”. Apesar de ter crescido no seio de uma família luterana  e ter até considerado uma carreira como pastor, o contacto de Nietzsche com a filosofia durante a adolescência (sobretudo Arthur Schopenhauer, de quem era admirador devoto) fizeram-no  afastar-se da religião. 

Na sua visão, os princípios defendidos pelo Cristianismo eram fundamentalmente opostos à própria vida. Para o filósofo, o conceito de pecado era apenas uma forma de nos fazer ter vergonha dos nossos próprios instintos e sexualidade; a fé, uma forma de desencorajar a nossa curiosidade e sentido crítico; e a piedade, um encorajamento à valorização da fraqueza. 

Para além disso, a célebre declaração de morte de Deus por Nietzsche é sintomática do próprio período em que foi feita. O progresso científico que atingiu um auge sem precedentes na altura do Iluminismo, levou o filósofo a crer que a crença num Deus omnipresente e criador do Universo já não era possível – que a fé religiosa não poderia continuar a resistir à luz da ciência.

2. O SUPER-HOMEM E A BUSCA POR UMA VIDA AUTÊNTICA

Uma vez que Deus morreu, Nietzsche acreditava que cabia ao Homem ser o seu substituto. Deste modo, desenvolveu a sua teoria do Super-Homem (Übermensch) – um ideal de Homem que, face à orfandade divina, luta para dar significado à sua própria vida, elevando-se dos demais pela sua recusa de uma vida pacata e segura. 

Tendo começado a trabalhar como professor logo aos 24 anos e sido forçado a aposentar-se uma década depois devido a problemas de saúde, Nietzsche procurou um sentido para a sua própria vida na escrita e nas viagens. Apesar da miopia que o obrigava a andar de bengala, durante anos,  andou de pensão em pensão, e cidade em cidade, por países como Itália, França ou Suíça, tendo passado a maior parte da sua vida adulta fora do país que o viu nascer. 

3. UM PENSADOR INCOMPREENDIDO

Devido à linguagem aforística que utilizava nas suas obras, as ideias de Nietzsche foram frequentemente incompreendidas ao longo do tempo. Uma das concepções erradas mais graves, que se criou à volta da sua obra, foi a de que o autor defendia ideias antisemitas. Na verdade, esta teoria começou após a sua morte, quando a sua irmã, Elizabeth Förster-Nietzsche (casada com um autoproclamado antisemita), começou a editar a obra de Friedrich de modo a espelhar os ideais nazis. 

A partir daí, o regime de Hitler começou a utilizar os textos de Nietzsche como base para justificar a sua ideologia, apropriando-se até da sua teoria do Super-Homem para designar os seus soldados. Só após a guerra, é que a manipulação da obra do filósofo pela sua irmã foi desmascarada e a reputação do filósofo limpa.

4. amor NÃO correspondido

Embora não se saiba muito acerca da vida pessoal de Nietzsche, conhece-se pelo menos a sua paixão pela filósofa e romancista russa Lou Andreas-Salomé. No seu livro Ecce Homo, reconhece a influência da autora num dos seus livros mais importantes, Assim Falava Zaratustra. Contudo, e apesar de Friedrich a ter pedido em casamento por três vezes, os seus esforços foram em vão. Mais tarde, Lou envolveu-se com o poeta Rainer Maria Rilke, sendo a sua relação revelada no livro Na Rússia com Rilke.

5. NIETZSCHE E o cavalo de turim

Um dos episódios mais curiosos e devastadores da vida de Nietzsche, é o do encontro com um cavalo que o levou à loucura. Em 1889, enquanto passeava pelas ruas de Turim, viu um homem a chicotear um cavalo porque este não se mexia. Perturbado pela situação, Friedrich colocou-se entre o cavalo e o agressor numa tentativa de proteger o animal, e desmaiou. Quando acordou, era incapaz de falar, proferindo apenas sons sem sentido. 

O que foi, inicialmente, julgado como um esgotamento nervoso, rapidamente progrediu para uma doença mental grave. Até hoje, não se sabe ao certo qual a doença que levou Nietzsche à loucura, contudo o episódio que esteve na sua origem tornou-se de tal forma lendário que inspirou um filme do realizador húngaro Béla Tarr, intitulado O Cavalo de Turim.

Friedrich morreu 11 anos depois. 

TRAILER DO FILME O CAVALO DE TURIM (2011).

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Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa