Harold Bloom Outubro 15

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O adeus a Harold Bloom (1930-2019), o crítico das paixões violentas

Diz o The New York Times que tratava os seus alunos, rapazes e raparigas, por querido e querida e despedia-se deles com um beijo no topo da cabeça. Deu a sua última aula universitária, em Yale, na passada quinta-feira. Harold Bloom, um dos críticos literários mais importantes da segunda metade do século XX, morreu esta segunda-feira, aos 89 anos. Recordámo-lo com 10 curiosidades sobre a sua vida e obra.

"Apaixonei-me violentamente pela poesia quando era ainda muito novo."

1. Dizia que, enquanto jovem, conseguia ler 1.000 páginas de cada vez. A sua viagem literária começou com a poesia iídiche, tendo descoberto, depois, os trabalhos de Hart Crane, TS Elliot, William Blake e outros poetas. Mais tarde, a voracidade manteve-se e gabava-se de ler e absorver 400 páginas numa hora e de saber recitar de cor toda a poesia de Shakespeare, o Paraíso Perdido, de Milton, e ainda a obra completa de William Blake.

2. Condenou o multiculturalismo, o feminismo, o marxismo e outros movimentos que classificava como “escola do ressentimento”

3. Subscrevia a famosa frase de Grouxo Marx: “Seja lá o que for, eu sou contra.”

4. Era um orgulhoso elitista: não gostava dos livros sobre Harry Potter, de slam poetry e enfureceu-se quando foi atribuído um National Book Award honorário a Stephen King. Apelidou de “puramente politicamente correta” a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Doris Lessing, autora do clássico feminista The Golden Notebook.

5. Na sua famosa obra Cânone Ocidental (1994), nomeou os 26 escritores fundamentais da literatura ocidental, de Dante a Samuel Beckett, incluindo Phillip Roth, Thomas Punchon e Don DeLillo entre os grandes contemporâneos. Shakespeare, para Bloom, reinava no centro do cânone

"Quando leio Saramago sinto-me como Ulisses tentando prender Proteu."

6. “Shakespeare é Deus“, declara em Shakespeare: A Invenção do Humano, argumentando que as suas personagens são tão reais como pessoas de carne e osso e que contribuíram para moldar a nossa própria perceção daquilo que significa ser humano.

7. Na obra The Book of J. (1990), declarou que algumas partes da Bíblia foram escritas por uma mulher, adiantando que poderá ter sido Betsabé, mãe de Salomão. Referia-se, frequentemente, ao Deus do Antigo Testamento como uma das mais fantásticas personagens ficcionais.

8. No ensaio A Angústia da Influência (2011), apelidou-se de epicurista que não reconhecia poder superior ao da arte.

9. A sua resistência à cultura popular era empática mas não absoluta. Apreciava o grupo rock The Band e o Rev Jimmy Swaggart, e outros televangelistas, fascinavam-no. Chegou a confessar, em 1990, em entrevista à Paris Review, que assistia à MTV, esclarecendo que esta oferecia uma “visão real do que o país precisava e desejava”. “É particularmente estranho e maravilhoso“, acrescentou.

10. Entre os autores portugueses que apreciava, encontram-se Camões, Pessoa, Eça de Queiroz e Saramago – que apelidou de “o mais dotado ficcionista vivo no mundo“, na sua obra Génio. “Quando leio Saramago sinto-me como Ulisses tentando prender Proteu, o deus metamórfico do oceano; ele passa o tempo a fugir“, declarou, em 2001, numa conferência, em Lisboa. Sobre Os Maias disse tratar-se de “um dos mais notáveis romances europeus do século XIX“, comparando-o com os maiores romances da história literária europeia.

Recorde a obra de Harold Bloom
Marisa Sousa
Coordenadora Editorial