A leitura como ato de poder

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Ao longo da História, os livros têm tido um papel fundamental na construção das sociedades. Desde os textos religiosos da Bíblia ou do Alcorão, a livros que desencadearam verdadeiras revoluções científicas, como A Origem das Espécies de Charles Darwin, ou sociológicas, como O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, os livros têm sido os pilares a partir da qual construímos a nossa identidade enquanto civilização. Por ser grande o seu poder, foram objetos temidos e, frequentemente, proibidos em governos que procuraram limitar a liberdade de pensamento; e a sua censura deu origem a clássicos distópicos como Fahrenheit 451 ou 1984

Hoje em dia, embora a censura ainda exista em vários lugares do mundo (basta lembrar, a título de exemplo, a notícia recente da intenção do Prefeito do Rio de Janeiro de apreender livros de temática LGBT na Bienal do livro), surge uma nova ameaça – mais perigosa porque menos visível – que é a da desinformação. Para além do ruído provocado pelo excesso de informação que nos chega dos mais diversos meios sobre um mesmo tópico, têm proliferado ainda as fake news (sobre as quais foi publicado recentemente o livro Viral – A Epidemia de Fake News e a Guerra da Desinformação e será lançado ainda o livro Fábrica de Mentiras), que dificultam o discernimento da verdade. Mais do que nunca, o leitor deve ser um leitor ativo, capaz de interpretar e questionar aquilo que está a ler; e a leitura, um ato de resistência perante aqueles que pretendem manipular a verdade a seu favor. 

ler é um ato de poder

“Ler sempre é um ato de poder. E é uma das razões pelas quais o leitor é temido em quase todas as sociedades” Alberto Manguel

Foi sob este mote que Alberto Manguel, escritor argentino que virá a Portugal na próxima sexta-feira, dia 25, para apresentar o livro Monstros Fabulosos, fez o manifesto que poderá visualizar abaixo. Tendo escrito extensivamente sobre literatura e a importância de ler, em livros como Uma História da Leitura ou A Biblioteca à Noite, Manguel que, para além de escritor, foi Diretor da Biblioteca Nacional da Argentina e amigo íntimo de Jorge Luis Borges, tem dedicado a sua vida aos livros. Se os benefícios da leitura para a saúde mental, não forem já razão suficiente para querer ler mais, então Alberto Manguel relembra outras duas importantes razões.

Em primeiro lugar, embora esteja meramente implícita na sua palestra, está a capacidade que a leitura desenvolve no leitor de criar empatia pelo outro – aquele que está do lado exterior da muralha que a sociedade delimita entre o que é familiar e o que é estrangeiro. Em segundo, está a capacidade de questionar o porquê de existir essa muralha, de questionar os próprios limites que nos são impostos pela sociedade. Aqui, relembra o exemplo dos escribas que, na antiga Mesopotâmia, eram os únicos que sabiam ler e, por essa razão, os únicos a conhecer a lei e interpretá-la – algo que ganha uma nova importância quando existem dirigentes que tentam propositadamente deturpá-la. É caso para lembrar um aviso da personagem do cartoonista Quino, Mafalda: “Viver sem ler é perigoso porque obriga-[nos] a acreditar no que [nos] dizem.” 

o livro como objeto de resistência

Sendo o símbolo máximo do conhecimento como arma contra a ignorância e a tirania, o livro tem vindo a ocupar um papel mais objetivo neste combate, com os chamados “book blocs”. Iniciados em Roma, durante protestos de novembro de 2010, contra os cortes do orçamento ao sistema universitário público, os “book blocs” são manifestações nas quais os protestantes constroem capas de livros em grande escala que utilizam como estandarte e escudo de proteção. Tendo tido muita atenção mediática, estes têm sido reproduzidos um pouco por toda a Europa, e até mesmo nos Estados Unidos.

Um comunicado de imprensa de um protesto em Londres, em 2010, explica a simbologia por detrás desta iniciativa: “Quando a polícia nos atacar, não veremos apenas a violência da polícia contra indivíduos, mas a violência do Estado contra a liberdade de expressão e de pensamento, e contra a educação. Os livros são as nossas ferramentas – ensinamos, aprendemos, brincamos, fazemos amor com eles e, por vezes, temos que lutar com eles.” 

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Citando o editor do jornal La Vanguardia, Jordi Nadal, num artigo sobre uma campanha publicitária da rede de livrarias alemã Thalia, que utilizava como slogan a frase “Donald Trump não gosta de ler”: “Sem a leitura, não há profundidade de campo, nem contraste, nem matizes; sem a leitura, caímos facilmente no fanatismo.” É a ameaça desse mundo a preto e branco, sem a admissão do cinzento, que torna a leitura absolutamente imprescindível nos dias que correm. Um livro não é lido da mesma forma por duas pessoas e a partilha de opiniões divergentes é essencial para fomentar o debate e evitar um discurso dogmático.

Embora estejamos longe do cenário distópico de Fahrenheit 451, onde existem bombeiros cuja única tarefa é queimar todos os livros, não deixa de ser importante lembrar o alerta de Ray Bradbury quando disse: “Não é preciso queimar livros para destruir uma cultura. Basta fazer com que as pessoas deixem de lê-los!”.

Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa