Outubro 25

Tags

Pablo Picasso, o poeta

Pablo Picasso em Cannes, França (1956)
Por Arnold Newman

Les Demoiselles d’Avignon (1907) e Guernica (1935) são dois quadros cujos traços não se esquecem. Marcam o período de excelência de um dos pintores mais influentes do século XX, que revolucionou o mundo artístico com o movimento cubista. O que muitos desconhecem, todavia, é a sua veia poética, que emergiu do artista por volta da década de 1930-1940. Pablo Picasso, pintor, escultor e ceramista foi, também, poeta e dramaturgo. Na data do seu aniversário, 25 de outubro, damos-lhe a conhecer as palavras por trás da tela.

Poema de Pablo Picasso com anotações, 1935
Poema de Pablo Picasso com anotações, 1935 | via Open Culture
Uma poesia que dispensa pontuações

Estamos no ano de 1935, no período que separa as duas Grandes Guerras Mundiais. Pablo Picasso tem 53 anos. A poesia começa a fluir numa época de crise interior, numa altura em que o artista admite desistir da pintura devido ao divórcio iminente com Olga Khokhlova. Ainda que seja nessa altura que a obsessão com a escrita começa de forma espontânea, a verdade é que demonstra, desde sempre, um grande interesse por estruturas linguísticas e métodos alternativos de expressão durante o seu período cubista.

Para quem conhece a sua obra e vida, não é uma surpresa que exista esta inclinação para as letras. No seu quotidiano em Paris, Picasso rodeava-se de poetas como Max Jacob, Gillaume Apollinaire, André Breton e Jean Cocteau. Através deste círculo de autores, o pintor acabava de mãos dadas com a literatura e a poesia contemporânea na Europa, o que lhe despertou a vontade de, também ele, tentar a sua sorte com as palavras, resultando em 25 anos de uma poesia descrita por Michel Leiris como:  

“[A]n insatiable player with words who like James Joyce in his Finnegans Wake, displayed an equal capacity to promote language as a real thing (one might say) and to use it with as much dazzling liberty.” via Dangerous Minds

A sua poesia acaba por estar imensamente ligada ao seu trabalho enquanto pintor. Picasso afasta-se também aqui da noção de verso, dessa musicalidade que nunca lhe despertou interesse, e trata as letras como se de pinceladas se tratassem. Para além disso, e pegando no movimento cubista e surrealista que tanto o influenciaram, Pablo Picasso põe de lado noções de gramática, estrutura e pontuação, criando quase como que colagens de imagens, ideias e emoções, tal como explica ao pintor Georges Braque: “A pontuação é o cache-sexe [tapa-sexo] que esconde as partes privadas da literatura”. 

poesia de pablo picasso
Si yo fuera afuera, in Claude Ruiz-Picasso Collection, 1935
via DH18 Mexico
Por entre a imagem e a escrita

Picasso escreveu em espanhol e francês, misturando muitas vezes as duas línguas no mesmo poema; havia, contudo, uma certa metodologia no uso de ambas as linguagens. De acordo com um estudo feito pela Universidade de Victoria e a Universidade de Houston, o artista preferia referir-se a comida ou a objetos do quotidiano na sua língua materna, enquanto conceitos mais abstratos como política, religião ou sexualidade eram descritos em francês.

Para o investigador Rafael Inglada, é na poesia que Pablo Picasso aparece como verdadeiramente espanhol, devido às constantes referências ao seu país através de símbolos como a gastronomia ou a tourada.

No entanto, aquilo que mais se destaca na sua poesia é, definitivamente, a marca visual que acompanha a escrita. Os seus poemas são como quadros cubistas, semelhantes a colagens e com textos abertos que permitem uma panóplia de interpretações por parte do leitor.

As críticas dividiram-se relativamente à poesia visual de Picasso. Muitos acreditavam que ele nunca pegou num livro e que foram as conversas com os poetas de que se rodeava que influenciaram o seu trabalho enquanto poeta. O que é certo é que a poesia do artista espanhol foge ao convencional, havendo quem lhe chame quadros literários, com a representação visual e a catapulta de sensações que, muitas vezes, dificultam o sentido da sua escrita. 

Ao longo de 25 anos, foram mais de 300 poemas e, inclusive, três peças de teatro. Sem entrar por linhas dúbias de qualidade versus quantidade, é certo que a intenção de Pablo Picasso de dedicar-se à poesia confirma o quão prolífico este homem foi enquanto artista. 

Deixamos-lhe alguns poemas em espanhol para descobrir Picasso, o artista para quem “a pintura nunca é prosa, mas poesia que se escreve com versos de rima plástica”.

*otra mañana*

el cielo se apoya con todas sus fuerzas en la seda del paño tendido sobre el marco descarnado
de la ventana y la palidez de sus mejillas hincha el bolsillo lleno de pelos del azúcar acidulado
del verde de las rosas de las anémonas la ampolla al deslizar su panza por la habitación se
desgarra la piel con las mantecas de la sierra de los labios helados del enlucido las gotas de la
sangre derramada de sus plumas arrancadas encienden el rebaño de farolillos amontonados
en el rincón para esta fiesta

pablo-picasso-poeta
20 de mayo de 1936

ah si el pájaro teje guirnaldas con las horas dormidas en el vientre de la araña de bronce
pudiera hacerse una fritura de estrellas en el fondo del aire del mar de los números la cólera
desatada de los chivos vestidos con plumas y cantar sobre el tendido del telégrafo rosa del ojo
del huevo azul de la bufanda anudada al clavo ardiente plantado exactamente en medio de la
frente entre los cuernos de la testa del toro qué silencio

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa