José Cardoso Pires Outubro 26

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José Cardoso Pires, a eterna reinvenção

José Cardoso Pires
Imagem: Eduardo Gageiro via Público

José Augusto Neves Cardoso Pires nasceu a 2 de outubro de 1925, no interior de Portugal, em São João do Peso, Vila de Rei. Como o pai era Oficial da Marinha, mudou-se cedo para Lisboa, onde acabaria por permanecer até ao fim da vida, salvo algumas passagens pelo estrangeiro. Em Lisboa, estudou no Liceu Camões, onde foi aluno de Rómulo de Carvalho.

Ainda começou o curso de Matemáticas Superiores, mas desistiu. Depois foi para a Marinha Mercante, mas acabou expulso por indisciplina. A escrita falava mais alto. A escrita seca, quase sem adjetivos, tornou-se a sua imagem de marca. Hoje recordamos José Cardoso Pires, que Helder Macedo diz ter sidoo pioneiro do que pode ser designado como a ‘nova ficção portuguesa’“.

Entre os livros, o Jornalismo e a Censura

Depois de deixar a Marinha Mercante, Cardoso Pires passa por vários trabalhos como agente de vendas e intérprete. Dedica-se, por fim, ao jornalismo. Em 1949, publica Os Caminheiros e Outros Contos, numa edição paga com o dinheiro que herdou após a morte do pai. No mesmo ano, começa a trabalhar na redação da revista feminina Eva. Com Victor Palla trabalha, também, para fundar uma coleção de livros de bolso.

Em 1952, publica Histórias de Amor. A censura considera o conteúdo do livro imoral e a PIDE apreende-o. O facto de se envolver ativamente politicamente não abona a seu favor e Cardoso Pires é detido, embora por pouco tempo.

Dois anos depois, em 1954, o seu primeiro livro é traduzido para inglês. Nesse ano, a trabalhar na Edições Fólio, lança a coleção Teatro de Vanguarda, que traz a Portugal obras de William Faulkner e de Samuel Becket, entre outros.

Intervenção política, exílio e regresso

Em 1958, ano em que publica o primeiro romance, O Anjo Ancorado, a intervenção política que mantém leva-o a participar no Congresso Mundial da Paz, em Estocolmo.

A crescente repressão política, particularmente com militantes do Partido Comunista – partido do qual Cardoso Pires era militante -, levam-no, em 1960, a procurar exílio provisório no Brasil, durante cinco meses.

Regressa depois a Portugal, voltando à direção da revista Almanaque, onde trabalhava com Sttau Monteiro, Alexandre O’NeillVasco Pulido Valente, Augusto Abelaira José Cutileiro. Fica por lá até ao fecho da revista, em 1961.

Entretanto, Cardoso Pires entra na direção da Sociedade Portuguesa de Escritores e participa em vários encontros internacionais, alguns clandestinos, como o Encontro de Escritores Peninsulares, em 1961.

Durante a década de 1960, escreve crónicas para o Diário Popular e orienta um suplemento cultural do Jornal do Fundão. Em 1968, publica O Delfimque se torna um marco icónico da literatura portuguesa do século XX.

José Cardoso Pires
Imagem: Observador
Inglaterra e o pós-25 de Abril

Em 1969, Cardoso Pires é convidado para ser professor de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College, em Londres. Fica por lá até 1971.

No ano seguinte publica o ensaio Técnica do Golpe de Censura, na revista inglesa Index. O ensaio é traduzido para várias línguas, mas em Portugal só é publicado cinco anos depois, em 1977.

Com o 25 de abril de 1974, surgem novas oportunidades e José Cardoso Pires torna-se diretor-adjunto do Diário de Lisboa. Mais tarde volta ainda ao King’s College e mantém uma crónica n’O Jornal até 1992, quando passa a escrever no Público.

Na década de 1980, publica outro livro importante para a literatura portuguesa, Balada da Praia dos Cães. Cinco anos depois é a vez de Alexandra AlphaAlém destes, publica ainda algumas colectâneas de contos e escreve duas peças de teatro.

De Profundis

Em 1996, José Cardoso Pires sofre um acidente vascular cerebral. Tal como tinha vindo a fazer ao longo de toda a vida, reinventa-se e o problema de saúde é transformado em livro no ano seguinte. Em De Profundis, Valsa Lenta relata o AVC, num livro que é uma “viagem à desmemória“.

Uma das características mais marcantes na obra de José Cardoso Pires é a sua capacidade de reinvenção, livro após livro. Cada uma das suas obras, das dezoito publicadas em cinquenta anos de carreira, parece inaugurar e terminar um ciclo. Este ciclo fecha-se, quase em definitivo, a 26 de outubro de 1998, quando o escritor português morre, depois de três meses num coma provocado por um problema respiratório.

Mais de vinte anos depois de nos ter deixado, a influência da escrita de Cardoso Pires na literatura e cultura portuguesa do século XX é ainda hoje inegavelmente marcante.

Recorde a obra de José Cardoso Pires
Sofia Costa Lima
Sofia Costa Lima
Coordenação Editorial: Marisa Sousa