Roger Eatwell: “Precisamos de um eleitorado leitor”

Juntamente com Matthew Goodwin, Roger Eatwell escreveu o guia definitivo para entender as recentes transformações na paisagem política da Europa. Publicado no passado dia 25 de outubro,  Populismo – A revolta contra a Democracia Liberal (Desassossego), analisa as nuances por detrás do aumento dos movimentos populistas, rejeitando a visão simplista que vê nesta mudança radical “o último grito desesperado de um eleitorado envelhecido e à beira da extinção” (da sinopse).

No início desta semana, recebemos Roger na nossa livraria Bertrand do Chiado e, após uma visita guiada à livraria mais antiga do mundo, tivemos uma breve conversa com o autor sobre estes movimentos, bem como o papel fundamental que a literatura pode desempenhar face a este fenómeno.

a ameaça do populismo em portugal

Tendo como cenário de fundo o mural de Fernando Pessoa do nosso café Bertrand, Roger Eatwell começa por admitir que há apenas um ano achava improvável que os movimentos populistas viessem a constituir uma ameaça real em Portugal ou em Espanha. Sendo países nos quais as cicatrizes do nacionalismo são ainda muito recentes (em Portugal, com o regime de Salazar e em, Espanha, com o de Franco), nada faria prever acontecimentos como o crescimento massivo de partidos como o espanhol Vox ou a recente eleição do deputado do partido nacionalista Chega, André Ventura, para o Parlamento português.

Embora considere que em Portugal é ainda precoce falar numa verdadeira mobilização populista, Eatwell crê que há dois fatores principais que poderão contribuir para que esta seja uma ameaça mais presente no futuro. Em primeiro lugar, a corrupção – um tema central no discurso dos líderes de movimentos populistas, e que tem vindo a ser um problema cada vez mais evidente na política portuguesa. Em segundo lugar, a imigração – um indicador crucial no desenvolvimento de movimentos nacionalistas, e que terá cada vez mais impacto com o despovoamento gradual das gerações mais jovens em Portugal.

a leitura como combate à desinformação

Embora estas transformações no clima político aconteçam subitamente, Roger acredita que a literatura pode ter um papel fundamental no combate ao crescimento dos movimentos nacionalistas. Na sua opinião, se olharmos para países onde este fenómeno mais tem proliferado – por exemplo, EUA, com Donald Trump, França, com Marine LePen ou na Grã-Bretanha, com o partido do Brexit, – o eleitorado destes candidatos é, regra geral, um eleitorado de um nível de educação inferior e que lê pouco. Nesse sentido, considera indispensável que eduquemos os jovens de hoje para a leitura, tanto na escola como em casa. Para Eatwell, a principal arma da literatura, contra os discursos nacionalistas, é o facto de munir os leitores de diferentes pontos de vista – sendo  possível, a partir de um livro, ficar a conhecer a perspetiva de um homem ou de uma mulher, jovem ou adulto, de contextos culturais e socioeconómicos muito diferentes dos nossos.

Quando questionado acerca do livro que recomendaria que as pessoas lessem para terem um melhor entendimento do atual clima político, Roger preferiu encorajar à leitura, seja de que género for: 

‘Acho que é muito difícil criar uma fórmula. Algumas pessoas   interessam-se muito por futebol e existem livros sobre futebol que abordam temas como o racismo. É mais provável que alguém que seja fã de futebol aprenda alguma coisa sobre o racismo ao ler um livro desse género do que lendo um livro académico abstrato, sobre teorias do racismo. Portanto, diria para tentarem ler o que vos interessa, livros que vos desafiem, de alguma forma, e à forma como pensam,  e que vos façam não ter uma visão  limitada do mundo. É isso que é fantástico na literatura.’

Tendo sido considerado o Livro do Ano para o Sunday Times, em 2018, em Populismo – A Revolta contra a Democracia Liberal dois dos maiores especialistas em fascismo e populismo, Roger Eatwell e Matthew Goodwin  apresentam argumentos convincentes para um compromisso sério com os apoiantes e as ideias do populismo nacional –  uma tendência que, acreditam, não será travada tão cedo.

Sendo o resultado de uma profunda investigação e tendo sido adaptado à realidade portuguesa, este é o guia definitivo para compreender a transformação da nossa paisagem política nos últimos anos.

Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa