Novembro 02

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Jorge de Sena: como se escrever fosse respirar

imagem: eduardo gageiro, 1970

Há cem anos nascia, em São Jorge de Arroios, Lisboa, Jorge Cândido de Sena. Formado em engenharia mas apaixonado pela escrita, é considerado um dos maiores poetas portugueses do século XX e uma personalidade incontornável no panorama cultural da época.

Procurou exílio no Brasil, em 1959, e, mais tarde, haveria de se naturalizar brasileiro. No Brasil, tornou-se professor de literatura e doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, em São Paulo.

Em 1965, um ano depois do início da ditadura militar brasileira, Jorge de Sena e a família haveriam de mudar novamente de país, desta vez para os Estados Unidos. Primeiro, para norte, para o estado do Wisconsin, onde foi professor da universidade. Depois para a soalheira Califórnia, onde foi diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada, na Universidade da Califórnia.

Regressou a Portugal depois do 25 de abril, mas a estadia foi curta. A relação com Portugal, a sua pátria, seria sempre complicada, tal como o próprio referia na sua poesia: “porque eu não mereço a pouca sorte de ter nascido nela“.

Faleceu a 4 de junho de 1978, sem nunca ter feito as pazes com o seu país. Grande parte da sua obra haveria de ser publicada a título póstumo, por vontade da mulher, Mécia de Sena.

Celebramos o centenário do nascimento de Jorge de Sena da melhor forma: recordando a poesia do homem que dizia escrever “como se escrever fosse respirar“.

Os Trabalhos e os Dias

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.

RECORDE A OBRA DE JORGE DE SENA:
Sofia Costa Lima
Sofia Costa Lima
Coordenação Editorial: Marisa Sousa