5 curiosidades sobre Albert Camus

Conhecido como um dos filósofos do absurdo (embora rejeitasse essa designação), Albert Camus foi um dos mais influentes pensadores e escritores do século XX. Tendo como magnum opus O Estrangeiro, publicado em 1942, a sua obra literária abrange diversos géneros, desde o romance e o ensaio filosófico, ao  conto ou à peça de teatro. Aos 44 anos, foi o segundo mais jovem Nobel da Literatura (1957), depois do britânico Rudyard Kipling, tendo morrido tragicamente três breves anos depois. 

No dia em que comemoramos 106 anos do seu nascimento, partilhamos consigo 5 curiosidades sobre o autor que encontrou no absurdo da vida um imperativo para a arte, pois como escrevia Camus: “[s]e o mundo fosse claro, a arte não existiria.”

‘Porque sou eu um artista e não um filósofo? É porque penso segundo as palavras e não segundo as ideias.’

1. ANTES DA FILOSOFIA, O FUTEBOL

Conta-se que quando questionado sobre se preferia o teatro ou o futebol, Albert Camus respondeu sem hesitação – o futebol. Durante os tempos de universidade na Argélia, jogou como guarda-redes na equipa Racing Universitaire Algerios (RUA), mas  uma tuberculose obrigou-o a desistir aos 17 anos. Ainda assim, foi com este desporto que aprendeu alguns dos ensinamentos mais importantes que guardou para a vida, tendo mesmo afirmado que tudo o que sabia sobre moralidade e as obrigações dos homens, devia-o ao futebol.

Foi depois da doença que o impediu de jogar que se iniciou na filosofia, e também aqui as lições de resiliência que aprendeu nos seus anos como guarda-redes lhe foram úteis. Acerca disso, afirmou: “Aprendi que uma bola nunca vem da direção que estamos à espera. Isso ajudou-me na vida, mais tarde.”  

A EQUIPA DE FUTEBOL DE ALBERT CAMUS (NA FILA DA FRENTE, COM BOINA E CACHECOL).

2. O CLÁSSICO de um século

As frases que iniciam a sua obra-prima são, talvez, duas das mais perturbadoras frases que já iniciaram um livro: “Hoje, a minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”. Mais do que as reflexões da  personagem de Mersault acerca da morte da sua mãe, O Estrangeiro é uma exploração das inquietações de Camus acerca do absurdo da vida e do sentido da existência. Publicado em 1942, o livro é sintomático de uma época marcada pela guerra e pela incerteza, sendo talvez por essa razão que o jornal francês Le Monde o colocou em primeiro lugar na sua lista de 100 livros do século.

O seu editor foi o poeta André Malraux, contudo o livro quase não viu a luz do dia devido à escassez de papel que ocorreu em França durante a ocupação pela Alemanha Nazi. Malraux chegou mesmo a pedir a Camus que enviasse papel do seu país Natal, Argélia, de modo a conseguir publicar o livro. Tendo começado por 4.000 cópias, tornar-se- ia um dos livros franceses mais vendidos do mundo. Com 10 milhões de cópias vendidas no século XX, é ultrapassado apenas pelo clássico infanto-juvenil O Principezinho. Por duas vezes, foi adaptado ao cinema – uma pelo realizador italiano Luchino Visconti e outra pelo realizador russo Zeki Demirkubuz.

3. Camus, O DON JUAN

Para além da literatura, do futebol e da filosofia, a outra obsessão de Albert Camus era com o sexo oposto. Embora tenha casado (duas vezes) e tido dois filhos com a sua segunda mulher, a matemática e pianista Francine Faure, Camus era conhecido por ter várias relações extraconjugais. O seu primeiro casamento durou apenas dois anos e o segundo, embora tenha sido mais longo, terminou com a sua mulher a ter um esgotamento nervoso devido à natureza libertária de Camus. Este episódio serviu de inspiração para o livro A Queda (1956), escrito como uma confissão de um reputado advogado parisiense que entra em crise após ter falhado em salvar uma mulher de se afogar. Alegadamente, a inspiração para a mulher afogada, Francine, disse a Camus que ele lhe devia esse livro, depois de anos a criar os seus dois filhos e a tolerar os seus inúmeros casos, algo com que Camus parece ter concordado.

Um dos seus casos mais célebres foi com a atriz espanhola, internacionalmente famosa, Maria Casares, com quem manteve uma relação 13 anos. Durante esse tempo, trocaram mais de 860 cartas apaixonadas, que foram publicadas pela editora francesa Gallimard, em 2018, num volume com 1.297 páginas.

Albert Camus e a atriz Maria Casares.

4. A rivalidade com SARTRE

Sendo duas das maiores figuras da literatura e da filosofia francesa do século XX, é natural que os caminhos de Albert Camus e Jean-Paul Sartre se tenham cruzado. Embora só se tenham tornado próximos depois da Segunda Guerra Mundial, os dois partilhavam, desde o início, várias semelhanças que levavam a uma comparação incessante entre ambos. Para além de serem os dois romancistas, ensaístas e filósofos, publicavam com a mesma editora e foram ambos reconhecidos com o Prémio Nobel da Literatura (Albert Camus em 1957 e Sartre em 1964). Embora Sartre o tenha rejeitado, sentiu-se na obrigação de justificar que a razão que o levou a fazê-lo não se prendeu com o facto de o seu adversário, Camus, o ter recebido antes de si.

As suas diferenças começam, desde logo, no contexto social em que cada um cresceu: Camus cresceu na pobreza nos bairros operários da Argélia, enquanto Sartre pertencia à alta sociedade francesa. Para além disso, diz-se que Sartre se ressentia pela aparência charmosa de Camus, que atraía muita atenção feminina. A um nível mais intelectual, o debate Camus-Sartre prendia-se com as opiniões, frequentemente opostas, que cada um deles partilhava nos jornais que dirigiam (o Combat, de Camus, e o Les Temps Modernes, de Sartre). Embora Camus fosse 7 anos mais novo, morreu 20 anos antes de Sartre.

5. uma morte idiota

Dias antes de falecer num acidente de automóvel, a 4 de janeiro de 1960, Albert Camus pronunciou-se acerca da morte do ciclista italiano Fausto Coppi dizendo: “Morrer num automóvel é uma morte idiota“. O autor viajava no lugar do passageiro com o seu editor, Michel Gallimard, quando este se despistou e conduziu o carro contra uma árvore, na cidade francesa de Villeblevin. Embora tenha sido considerado um acidente, existem teorias de que o despiste tenha sido engendrado por espiões soviéticos, devido a um artigo que Camus escreveu sobre o Ministro de Negócios Estrangeiros soviético da altura, Dmitri Shepilov.

Inicialmente, era intenção de Camus ter viajado de comboio com a sua mulher e filhos mas, à última hora, aceitou o convite do seu editor (que morreu cinco dias depois, devido ao acidente) para fazer a viagem de carro. Camus tinha apenas 46 anos e, no seu bolso, quando morreu, estava o bilhete de comboio que nunca chegou a ser utilizado. Para além disso, a polícia encontrou o manuscrito inacabado do livro O Primeiro Homem, sobre a sua infância na Argélia, que foi publicado em português pela editora Livros do Brasil, em 2018. Camus acreditava que esta seria a sua melhor obra.

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Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa