Que mais resta dizer sobre José Saramago?

José Saramago
Imagem: Fundação José Saramago

Que mais resta dizer sobre José Saramago? Quantas linhas mais precisam de se alinhar sobre esse homem para quem “escrever é fazer recuar a morte, é dilatar o espaço da vida” (in José Saramago nas suas Palavras)? Ribatejano, nascido numa barraca de chão de barro, faria hoje, dia 16 de novembro, 97 anos. Uma figura que não era de meios termos e que, para lá das divisões matemáticas de amores e ódios, pôs o mundo inteiro a falar dele. O nosso Prémio Nobel da Literatura.

É difícil tentar escrever algo mais que não tenha já sido dito sobre ele. Ainda assim, relembramos hoje o português que cresceu num berço de pobreza, revolucionando a sua própria vida até aterrar em Estocolmo, tornando-se (ainda mais) eterno. Ainda assim, tentamos escrever sobre ele porque, mais do que ter revolucionado a sua própria vida, entranhou-se na nossa. 

José Saramago
De pé descalço até à literatura

Ao jornal Público (2010), Eduardo Lourenço, professor e filósofo, disse: “Na sua história pessoal e de escritor, Saramago foi o que de mais próximo tivemos da Gata Borralheira, uma gata borralheira rústica, que nasceu num berço pobre e chegou àquele trono de Estocolmo. (…) Ele trouxe para a literatura uma visão do mundo segundo José Saramago, uma espécie de evangelho segundo José Saramago.”

A aldeia de Azinhaga, no concelho da Golegã, viu o menino José nascer em 1922. Passados dois anos, mudou-se com a família para Lisboa. Teve uma infância pobre. No discurso pronunciado perante a Academia Sueca, a 7 de dezembro de 1998, no entanto, recordava-se com carinho da terra que o trouxe ao mundo, no monte dos avós maternos, onde andou sempre descalço até aos 14 anos de idade. Na biografia escrita por Joaquim Vieira, José Saramago – Rota de Vida, descrevem-se os anos em que o escritor chegou a comer sopa do mesmo prato da mãe, tendo recorrido, muitas vezes, à sopa dos pobres (via Visão).

Formou-se como serralheiro mecânico e o seu primeiro emprego, entre os 17 e os 18 anos, foi numa oficina de automóveis. À noite, frequentava a biblioteca municipal, no Palácio das Galveias: “Lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre.” (via Fundação José Saramago).O primeiro livro que recebeu veio das mãos da mãe: A Toutinegra do Moinho, de Émile de Richebourg. No entanto, Saramago só conheceria a sua primeira estante de livros por volta dos 19, numa prateleira interior do guarda-louça.

Em 1955, começou a colaborar com a editora Estúdios de Cor. Surgiram as primeiras traduções de autores como Colette, Tolstoi, Baudelaire e Hegel. A partir daqui, nunca mais parou. Vieram Os Poemas Possíveis (1966), Provavelmente Alegria (1970), A Bagagem do Viajante (1973). Até 1975, altura em que fica desempregado e decide dedicar-se à escrita a tempo inteiro. 

Em A Caverna (2000), de José Saramago

“Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensina a cozer os barros, e o livro, finalmente convocado, aparece…”

Letras que nos fazem ver

Em entrevista à revista Somos Livros, em 2018, Zeferino Coelho, editor de José Saramago até 2014, refere que o autor “foi pelo menos o mais importante prosador do século XX”, ao colocar a literatura portuguesa no “quadro universal”O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) contribuiu, em larga escala, para isso. Ficcionando e humanizando a vida de Jesus Cristo, alude a uma eventual relação com Maria Madalena. As críticas choveram e chegaram, inclusive, ao Vaticano, depois de Saramago ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, condenando a atitude da Academia e apelidando o autor de“comunista inveterado”.

Mas foi com Ensaio sobre a Cegueira (1995) que o autor chegou aos subúrbios do mundo. Há qualquer coisa de transcendental numa cegueira que ataca quem não quer ver, num vírus que tem tanto de metafórico como de físico. É talvez essa a genialidade na sua obra, ao tocar no cerne da questão – ou questões – que assolam a humanidade. Mexe-nos nas vísceras do coração, inquieta-nos e, ironicamente, faz-nos ver. Esse milagre literário – vindo dele, assumido ateu – repete-se noutros romances, como As Intermitências da Morte (2005), obra que protagoniza o dia em que a Morte, cansada de tudo, decide suspender o seu trabalho de matar, criando uma epidemia de vivos. E, novamente, Saramago ataca-nos e dá-nos vontade de viver.  

José Saramago partiu em 2010 e deixou-nos as suas personagens, “os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver”. Não podemos ficar zangados com ele por nos ter  deixado um vazio, uma ausência ensurdecedora. Não podemos ficar zangados porque já o médico do Ensaio sobre a Cegueira alertava: “Morrer sempre foi uma questão de tempo.”

Fontes: Visão, Observador e Somos Livros

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa