Jorge de Sena, um poeta de múltiplas facetas

Ler no Chiado, Jorge de Sena

Foi no dia 2 de novembro, que se celebraram os 100 anos de nascimento de um poeta incontornável, prodigioso e, de forma paradoxal, praticamente desconhecido no berço que o viu nascer. Jorge de Sena, português autoexilado, foi tema de discussão na livraria mais antiga do mundo, na sessão “Ler no Chiado” de novembro, numa conversa moderada por Isabel Lucas e que contou, para além de Margarida Braga Neves, professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Joana Pontes, realizadora, e Mariana Viana, ilustradora, com a presença surpresa de alguns membros da família Sena.

Um poeta de múltiplas facetas

“Falareis de nós como de um sonho. / Crepúsculo dourado. Frases calmas.” Foi com estes versos que Joana Pontes deu início à sua relação com Jorge de Sena. Realizadora e professora universitária, produziu, em 2005, O Escritor Prodigiosoum documentário sobre o autor português. Uma noite, no Algarve, ao ouvir um programa de rádio, escutou aquele poema da boca do locutor, seu amigo, que se recusou a indicar o nome o autor, rematando: “Não, tu um dia vais descobrir isso.”

Passados 13 anos, na data do seu 30.º aniversário, uma outra amiga ofereceu-lhe uma colectânea de poemas onde, na primeira página, se encontravam as palavras que tanto procurara em jovem. Um amor que nunca mais acabou e pelo qual lutou durante 12 anos, tempo que demorou a arranjar financiamento para o filme que revelaria Sena enquanto poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário, um dos grandes da literatura portuguesa. 

Margarida Braga Neves, professora na Faculdade de Letras, admite que é essa grandeza que define a obra deste homem que, em grande parte, continua desconhecido no mundo literário português. “É uma obra muito grande para um país pequeno que, até larga medida, não foi capaz de a ver, compreender e acolher.” Esta falta de reconhecimento marcaria Jorge de Sena para a sua vida inteira, uma mágoa denotada na sua poesia ao referir-se a Portugal como “pátria minha, porque eu não mereço / a pouca sorte de nascido nela.” (in 40 Anos de Servidão, 1982).

Mesmo perante esta tristeza, e estando ele exilado entre o Brasil e os Estados Unidos da América, manteve-se sempre a par de tudo o que se passava em Portugal, tanto a nível político como cultural. Mantinha uma extensa correspondência com inúmeras figuras do meio literário e cultural, como José Régio, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, entre outros. Paralelamente, elaborou antologias, estudou a literatura brasileira, inglesa, norte-americana e espanhola e traduziu poesia e ficção. 

Foi, em todos os sentidos, um poeta de múltiplas facetas.

Ler no Chiado, Jorge de Sena

Da esquerda para a direita: Mariana Viana, Margarida Braga Neves e Joana Pontes

Mécia de Sena, um pilar sem fim

Ao longo de toda a conversa, surge e ressurge a imagem de Mécia, mulher de Jorge de Sena, muitas vezes associada a uma protecção quase excessiva que exercer sobre a obra do marido  – ideia que tanto as convidadas, como alguns dos membros da família – presentes em Lisboa a propósito de uma exposição patente na Biblioteca Nacional – consideram ser um mito.

Joana Pontes referiu que, em Portugal, se estava à espera que Mécia de Sena deixasse a obra a cargo de especialistas, algo que nunca aconteceu porque, de outro modo, e nas suas palavras, “daqui a pouco isto é a arca do Pessoa, cada vez aparecem mais coisas.” Esta mulher, que está perto de completar 100 anos, deu um apoio extraordinário na organização de todas as correspondências de Sena, bem como na criação de um índice de toda a sua obra, “um instrumento de trabalho extraordinário” que, para a realizadora, foi fundamental no meio de uma biblioteca com mais de 20 mil livros e uma série de trabalhos do escritor, ainda por publicar. 

Uma das filhas relembrou que, tal como o pai também sofreu alguma crítica por parte do meio literário, também a mãe teve de ouvir comentários de várias pessoas por não ser “uma mulher de letras”. No entanto, e ainda que “muito rígida”, era de uma disciplina implacável e uma excelente editora, a quem “nem uma vírgula escapava.”

Ler no Chiado, Jorge de Sena

Ilustrações de O Físico Prodigioso, edição especial ilustrada por Mariana Viana, Editora Guerra & Paz.

O Físico Prodigioso e os livros que marcam uma vida

Mariana Viana foi convidada, em 2017, para ilustrar O Físico Prodigioso, uma edição especial da Guerra & Paz. Tal como Joana Pontes, descobriu Jorge de Sena quando tinha 18 anos, tendo encontrado na história do físico algo de “transformador”. Em todo o processo de ilustração, admite que teve dificuldade em definir a personagem principal, uma vez que tinha “receio de estragar a imagem que todos têm.” No final, Mariana ficou contente, ainda que não completamente satisfeita, “precisamente porque a obra me dá tanto e senti que não conseguia transmitir nas imagens aquilo que sinto realmente.”

Esta obra foi escrita no Brasil, em 1964, após o golpe de Estado que instaurou a ditadura militar. Nas palavras de Margarida Braga Neves, trata-se de “uma história de amor, revolta e afirmação do poder do povo contra a opressão.” O mais curioso, ainda assim, é o facto de Sena ter referido este físico como a sua personagem mais autobiográfica

Paralelamente, Sinais de Fogo é outro romance fulcral na obra do autor. Publicado postumamente, em 1978, não chegou a ser terminado por Sena. Ainda assim, é um romance que funciona perfeitamente sem uma conclusão, relatando a vida de um jovem na Figueira da Foz, no período em que descobre tudo aquilo que o rodeia. Uma personagem sem educação política, sem noção do que é o amor, sem noção do que é a poesia. “É um romance de aprendizagem e de formação. Vai encontrar o amor, a amizade, o mundo político, a traição, e vai descobrir-se poeta”, conclui a professora Margarida, chegando a equiparar Sinais de Fogo ao nível de excelência de Os Maias, de Eça de Queiroz.

Jorge de Sena é um nome que, como tantos antes dele, só começa agora a ser reconhecido, anos após a sua morte. Após esta sessão, por entre as paredes que conheceram várias gerações de autores, fica-se com a sensação, nas palavras de Isabel Lucas, que “apenas as portas foram abertas” para a imensidão que ainda falta conhecer na sua obra.  Existe, todavia, a promessa de que, depois do primeiro encontro, nunca mais somos iguais. Sena fica. E é neste embalo que fica, também, a sua literatura. 

Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa