5 curiosidades sobre William Blake

Apesar de ter sido ignorado (e até rejeitado) pelos seus contemporâneos, William Blake (1757-1827) veio a ser reconhecido postumamente como um dos mais importantes poetas e artistas da História da Grã-Bretanha. Embora tenha vivido a revolução do Iluminismo, foi um crítico acérrimo deste movimento que, na sua opinião, negligenciava aquele que é o elemento mais importante da existência humana – a imaginação. Já no que diz respeito à religião,  apesar de ser um cristão convicto, condenava a igreja enquanto instituição, bem como muitas das interdições que esta impunha aos seus seguidores. 

Por estas razões, e por outras, foi uma figura altamente controversa no seu tempo, havendo ainda quem questione se o seu talento era da natureza do génio ou da loucura. Ao assinalarmos (28 novembro) 262 anos desde o seu nascimento, partilhamos cinco curiosidades sobre este autor que recusou todos os rótulos e viu na capacidade humana para a imaginação e para a Arte, a verdadeira imagem de Deus.

‘O mundo da imaginação é o mundo da Eternidade.’

1. visões de anjos bons e maus

O mistério do misticismo (visto, por alguns, como loucura) de William Blake começa logo na infância, altura em que o próprio afirma ter começado a ter visões. Uma das primeiras de que se recorda, ocorreu quando tinha quatro anos e, alegadamente, começou a gritar por ter visto Deus na janela do seu quarto. Outra das visões mais marcantes que teve durante a infância, ocorreu cinco anos depois, altura em que afirma ter visto anjos a pendurar lantejoulas nos galhos de uma árvore e, mais tarde, num dia em que observava preparadores de feno a trabalhar, viu figuras angelicais a caminhar entre eles. 

Estas experiências místicas repetiram-se durante toda a sua vida e inspiraram grande parte da sua obra poética e pictórica. Blake acreditava que era guiado e encorajado por arcanjos para criar e que os próprios arcanjos eram apreciadores da sua arte. A este propósito, William Wordsworth, poeta inglês, seu contemporâneo, comentou: “Não há dúvida de que este pobre homem é louco, mas há algo na loucura deste homem que me interessa mais do que a sanidade do Lord Byron ou de Walter Scott.”

THE GOOD AND EVIL ANGELS, WILLIAM BLAKE (TATE BRITAIN)

2. uma nova técnica de gravura

Com pouco mais de dez anos de idade, Blake começou a fazer gravuras de desenhos de antiguidades gregas comprados pelo seu pai, além de escrever e ilustrar as suas próprias poesias. Em 1772, tornou-se aprendiz do famoso gravador James Basire, com quem trabalhou até aos seus vinte e um anos. Tendo-se tornado um profissional na arte, William chegou mesmo a inventar uma nova técnica de gravura, que utilizou para fazer o que ele chamou de ‘livros iluminados’.

Com esta técnica, demonstrada no vídeo abaixo, Blake conseguia gravar texto e ilustração na mesma chapa, sem recorrer a tipos móveis, e colorindo a página, posteriormente, à mão. As gravuras que produziu para os seus livros iluminados, apesar de não terem recebido o devido reconhecimento enquanto William foi vivo, são hoje consideradas entre as mais importantes obras de arte Romântica, e podem ser contempladas no William Blake Archive

3. A CIÊNCIA COMO A ÁRVORE DA MORTE

“A Arte é a Árvore da Vida. A Ciência é a Árvore da Morte.” – escreveu William Blake, em 1826. Apesar de ser um visionário, não via com bons olhos os ventos de mudança que abalaram a Europa, com a Revolução Industrial e o Iluminismo. A sua valorização da imaginação como o elemento mais importante da existência humana contrastava com os ideais racionais e empíricos do Iluminismo, chocando, sobretudo, com as visões ‘materialistas’ e ‘estéreis’ de Isaac Newton, John Locke e Francis Bacon – a “trindade infernal”, segundo Blake. 

A sua disputa com Isaac Newton, em particular, era bem conhecida, pois Blake desprezava a sua teoria da óptica que negligenciava por completo a existência da visão espiritual – algo absolutamente fundamental na sua vida e obra. Em 1795, imortalizou o cientista ao retratá-lo como um geómetra divino.

NEWTON, WILLIAM BLAKE (TATE BRITAIN)

4. LIBERDADE DE AMAR SEM RESTRIÇÕES

Em 1782, William Blake conheceu a sua mulher, Catherine Boucher, enquanto recuperava de um desgosto amoroso. Embora tenham tido um casamento feliz, Blake é, frequentemente, considerado (juntamente com Mary Wollstonecraft e o seu marido William Godwin), um dos pioneiros do movimento do amor livre – um movimento de reforma que se iniciou no século XIX e que via o casamento como uma escravidão e pretendia acabar com todas as restrições impostas à atividade sexual.

Defensor da homossexualidade, da prostituição e do adultério, Blake contestava a noção tradicional cristã de castidade e criticava as leis do casamento do seu tempo (sendo que num período mais conturbado do seu casamento, por Catherine não conseguir ter filhos, chegou a sugerir uma relação polígama com uma segunda mulher). Na sua poesia, sugere que as obrigações de fidelidade impostas pelo casamento reduzem o amor a um mero dever, em vez de afeição autêntica. Tendo sido fortemente influenciado pelos ideais românticos, escreve num dos seus poemas, em defesa do poder do amor: “Se uma coisa ama, é infinita”.

OBERON, TITANIA AND PUCK WITH FAIRIES DANCING, WILLIAM BLAKE (TATE BRITAIN)

5. influência na cultura popular

Blake morreu pobre e a sua obrasó começou a receber o devido reconhecimento quando, em 1860, Alexander Gilchrist publicou o livro Life of William Blake. Desde então, os seus poemas têm sido adaptados a música clássica por compositores como Ralph Vaughan Williams, e inspirado uma série de artistas e autores: desde o pintor expressionista Jackson Pollock, que tinha uma ilustração de Blake pendurada na parede do seu estúdio, em Long Island, a escritores como James Joyce, Salman Rushdie, Allen Ginsberg, T.S. Eliot e Walt Whitman, ou músicos como Bob Dylan, John Lennon, e Patti Smith

Dois exemplos mais curiosos da sua influência na cultura popular são  a importância que Philip Pullman atribui à obra de Blake na criação da sua trilogia do género fantástico, Mundos Paralelos, (que teve recentemente uma adaptação a série pela HBO), e a referência do autor Alan Moore à obra do poeta inglês nas suas novelas gráficas  V de Vingança e Watchmen

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Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa