valter hugo mãe: “Gosto de pensar que a poesia é a lei que me ordena” (PT. I)

Valter Hugo Mãe
Fotografias: DR / Porto Editora

Traz o sotaque carioca a dançar-lhe na ponta das palavras, das cada vez mais frequentes idas ao Brasil. Tomando emprestadas as palavras de Ruy Belo, ouvi-lo falar é como ter à nossa frente todo o tempo. Ativo militante do amor e da poesia, aos 48 anos, deixa-nos a sensação de já só se preocupar com o que é realmente importante. Valter Hugo Mãe, uma alma maiúscula num corpo imprudentemente poético.

Cresceu a acreditar que não chegaria aos 18 anos de idade, viveu assombrado pelo fantasma da morte, numa cidade periférica, no seio de uma família pobre. Acreditou que jamais conseguiria pagar as contas vendendo livros. A sua vida é uma prova de resistência?

Todas as vidas são. Não somos convidados à facilidade. Alguns com mais sorte, outros com menos. Mas ninguém garante nada senão sua decadência paulatina e a inevitabilidade da morte. Escrevi sobre isso várias vezes. Somos todos heróis. Persistimos bravamente. Ainda que muitas vezes nos consideremos fracos, não o somos. Fracas são as magnólias. Tão belas e tão pouco valentes.

Qual é a memória mais antiga que tem?

A do dia 25 de abril de 1974. Tinha menos de três anos de idade. Os meus pais viajaram a Lisboa a um assunto de emprego e foram surpreendidos pela Revolução. Guardo imagens e palavras desse dia. Estava com os meus pais e com os meus avós maternos. Tenho muito orgulho de lembrar desse dia. Muito orgulho de ser essa a minha memória mais antiga.

O que diria hoje à criança que foi?

Adeus. Porque saberia que nunca mais a voltaria a ver inteira. Brilhante em sua candura, honesta na sua esperança.

Saramago chamou-lhe tsunami literário. Há, na literatura portuguesa, um Antes de Valter e um Depois de Valter. O que é que não mais ficou igual Depois de Valter?

Somos sempre, cada um de nós, pontos de possível viragem. Não rasuramos nada, apenas inscrevemos os nossos modos de ver, como se fossem outra verdade. A maravilha da Literatura é essa, uma verdade alternativa que permite instalar em redor outra forma de pensar, até que a sua proposta seja mais do que plausível, seja coerente e desejável. Gosto de pensar que a poesia é a lei que me ordena. Quanto mais o penso mais me sinto num Estado cuja Constituição se faz em verso.

É o tipo de Estado que mais me importa. O que mais amo. Quero viver numa realidade que ame.

Perguntaram-lhe em que língua escreve. Respondeu que talvez estivesse a tentar criar um valterês, um português que acaba por ser um pouco mais seu do que exatamente de algum país. Como é esse valterês?

A Língua de um autor é a sua identidade. Eu busco essa perturbação no português que permita chegar a uma identidade, algo que seja mais do que um discurso, seja uma espécie de companhia. Quando nos abeiramos de uma grande obra pressentimos a presença de quem a engendrou, como se a autoria fosse uma conspiração para estar presente. Eu quero lutar por uma obra que não se defina por uma valência retórica de determinada época, mas por certa assombração. Um diálogo para sempre entre o leitor e o texto, que se transforma em alguém inacabado, inacabável. Transforma-se claramente em alguém.

Valter Hugo Mãe
"Aceitamos uma mediania constante para não nos comprometermos demasiado."
Sobre o Brasil, disse "se eu ficar impedido de voltar, eu nunca mais regresso inteiro a Portugal. Por vezes, em outros países, encontro pessoas que apreciam profundamente o que eu faço, mas raramente têm o abraço que os brasileiros têm. E raramente fazem o ruído que um brasileiro pode fazer. E isso é muito bonito."

E, quanto a nós, portugueses, o que é ainda temos que o emocione?

Tudo. Sou português. Amar o Brasil não me cria qualquer esquecimento. Até porque o Brasil ainda é uma lição que os portugueses precisam de estudar, pelo quanto se manifesta nossa História ali também. Portugal é um país sempre em esperança. Julgo que deveríamos ser mais exigentes. Baixamos a guarda com facilidade. Aceitamos uma mediania constante para não nos comprometermos demasiado. Isso é lindo nas amizades, o não nos obstinarmos, mas pode ser frustrante no plano social e político. Sonho muito com meu país menos burocrático e mais rigoroso. Um Portugal mais responsável sem perder sua emotividade, sua humanidade.

Em país de Bolsonaros, quem tem poesia é…?

Se entendermos poesia como respeito pelos valores mais elementares, diria: Humano. É um susto que um indivíduo praticamente analfabeto, que nunca terá lido um livro, cujo pensamento tem a elaboração complexa à altura de um menino de doze anos de idade, se torne presidente de alguma coisa. E é deprimente que outras pessoas adiram euforicamente a um projecto ignorante, procurando glorificar a ignorância e a estupidez. A ignorância pode ser muito digna, mas o orgulho na ignorância não tem dignidade alguma. É uma estupidez.

"Eu pensava que quando se sonha tão grande, a realidade aprende" (in O Filho de Mil Homens). De que tamanho são os seus sonhos e o que têm dentro?

Meus sonhos são muito simples. Passam todos pelo mesmo de sempre. Amar minhas pessoas, estar com elas, intensificar a sua companhia e cuidar para que estejam felizes tanto quanto se pode ser feliz. Depois, escrever um livro que me convença de ser melhor do que aqueles que já escrevi. É o que quero aprender. A escrever o que não soube escrever ainda.

São os últimos dias na Terra, prepara-se para ir viver para Marte e só pode levar 1 livro. Qual é o escolhido?

Teria de levar os sete volumes do Proust. Não quero saber se desobedeço às regras que me está a impor. Todas as ilhas desertas e planetas por habitar deviam ter uma estante com os sete volumes do Em Busca do Tempo Perdido. Sinto que, com eles, um indivíduo sozinho poderia voltar a plantar tudo o que houve de melhor, até renascer a música de Bach e a pintura de Goya, até vir Baudelaire infernizar os espíritos e voltarmos a mestiçar raças e a inventar catedrais com abóbadas incríveis e cheias de obras dos escultores mais perfeitos.

“O amor é para heróis” (in A máquina de fazer espanhóis)
O Valter é um herói?

Sim. Claro. Muito mais admirável do que esses de mentira que voam e lançam raios pelos olhos. Eu sobrevivo, glorifico e submeto o mundo inteiro com um só verso. Amo muito. Eu amo muito. Tenho esse privilégio.

Reconheceu que algumas histórias de encantar lhe provocam náuseas. Porquê?

Algumas são feitas de muito medo, cheias de susto, outras são instrumentos de padronização aos costumes de época. Quer para definir o que é um bom cavalheiro e uma boa dama, quer para definir relações de poder e de lugar social. Quase todas as princesas das histórias de encantar simbolizam adornos de seus príncipes e não são mais do que parideiras de seus herdeiros. E quase todos os príncipes simbolizam o mocinho provedor que não pode senão industriar para sustentar mulher e filhos. Onde está o encanto? Vivemos predados por convenções que nos obrigam a papeis que não nos são naturais. Nisso, estou do lado das feministas. Quero definir meu caminho e aquilo que me identifica. Não quero instruções para a felicidade. Quero respeito e as mesmas oportunidades. Acerca da felicidade, eu que sei o que me interessa.

Disse, há dias: "Não quero nunca abdicar da tranquilidade, que é exatamente aquilo que me permite pensar nos livros. Se eu estiver acossado com a prestação da casa, provavelmente não consigo escrever..." Este país não é para poetas?

Nenhum país garante o direito à poesia. A poesia acontece à revelia ou, no máximo, é tolerada. Como somos um país pequeno, de população reduzida, somos inevitavelmente um lugar de poucos leitores, o que implica a dificuldade grande de um escritor se cuidar apenas com aquilo que aufere pelos seus direitos. É um desafio. Alguns de nós, felizmente, conseguem-no. Para isso contribui o reconhecimento lá fora. É a grande glória possível no nosso pequeno país, viver da escrita.

Confessou: "(…) Estou convencido de que é na poesia que reside a maior força de que sou capaz. É meu tremendismo." Com esse superpoder, continua a ter a pretensão de salvar o mundo?

Quero, ao menos, não piorar o mundo. Como me despediria da criança que fui, também já entendi que há gente indisponível para ser salva. Aceitar que algumas pessoas optam pelo abismo e votam no abismo é essencial, porque não podemos cultivar o remorso de, nos nossos planos de beleza, não caber toda a gente. Porque não cabe. Então, estou muito interessado em fazer com que o mundo não destrua minha benignidade, minha generosidade, meu compromisso com a verdade e com a esperança. E é desse modo que me apresento perante quem se encontra comigo. Mas sei que outras pessoas vivem a avidez de ver o mundo sangrar, como se sucumbissem a uma vontade de vingança. Não quero permitir que algo me agrida tanto que viva à espera de vingança. Quero estar como útil aos outros, como quem ainda sabe amar, sim, como dizia acima, ainda sou um herói.

O que é um bom poema?

Aquele que não nos permite voltar ao que éramos. Um que interrompa definitivamente tudo o que já sabíamos e nos revele como a verdade pode ser outra coisa.

A poesia salva?

A mim, todos os dias. Verso a verso. Maior gratidão por seu feitiço.

Entrevista a valter hugo mãe, disponível na revista Somos Livros de dezembro de 2019.

A segunda parte desta entrevista será publicada no nosso blogue brevemente.
Enquanto espera, vá a uma livraria Bertrand e levante a sua revista.

Marisa Sousa
Coordenadora Editorial