Ler na Er@ das #RedesSociais

Ler nas Redes Sociais
Imagem: We Heart It / Nikkie

Numa época em que a morte do livro já foi anunciada incontáveis vezes, bloggers e influenciadores estão a encorajar os seus seguidores a ler mais. Por entre as quatro paredes do Instagram, um nicho digital aponta a câmara às estantes e mostra ao mundo o que anda a ler. O resultado arruma-se na hashtag #bookstagram, partilhada, desde o nascimento da plataforma, cerca de 35 milhões de vezes e com alicerces para durar. Uma nova tendência ganha ímpeto um pouco por todo o mundo – a paixão pelos livros, declarada nas redes sociais.

Desde os mais jovens aos mais velhos, dos projetos entre pais e filhos, às maratonas literárias entre amigos, o bookstagram tem espaço para todos. O que começou como uma simples partilha de leitura, nos primórdios da rede social, em 2010, depressa se transformou na curadoria de feeds visualmente apelativos, onde o livro é obra de arte.

Mais do que o objetivo claro de divulgação, existe, acima de tudo, o amor pela leitura. A comunidade do bookstagram promete opiniões honestas, garantindo que os filtros se cingem apenas à fotografia e não às ideias que partilham com os outros leitores.

De Picasso ao Instagram, o livro persiste

Em 1939, Pablo Picasso prestou homenagem ao retrato de Madame Moitessier, pintado por Ingres, no século XIX, ao representar a amante, Marie-Thérèse Walter, a ler um livro. Como ele, foram vários os artistas ao longo da história que utilizaram o livro como um adereço nas suas obras; em Os Embaixadores (1533), de Hans Holbein, os livros nas estantes enfatizavam o papel dos homens, dedicados a Deus e à ciência.

Ainda que, atualmente, os motivos sejam diferentes, há, ainda assim, um propósito na arte por detrás da fotografia, nas imagens atraentes que retêm o olhar do leitor, aliadas à opinião que influencia. É o novo passa a palavra digital, onde quanto mais criatividade houver, maiores são as probabilidades de se captar a atenção.

Unidos por um amor comum, há bibliófilos a criar verdadeiros santuários digitais. James Trevino (@james_trevino) é certamente impossível de ignorar. Conta com mais de 230 mil seguidores no Instagram e o seu feed comemora a junção ideal entre a arte e a literatura. Nas suas fotografias, pilhas de livros são transformadas em Dementors, da saga de Harry Potter, ou numa recriação da obra Starry Night (1889), de Van Gogh. Em várias entrevistas a jornais e revistas online, Trevino garante que o principal propósito é influenciar alguém a ler, especialmente as gerações mais novas.

Paralelamente, algumas celebridades decidiram juntar-se também ao bookstagram. Reese Witherspoon (@hellosunshine) e Emma Watson (@oursharedshelf) criaram clubes literários online, maioritariamente centrados em histórias feministas. Com fóruns de discussão e entrevistas regulares aos autores das obras escolhidas, as leituras são partilhadas, em grande parte, no Instagram.

Em Portugal, atualmente, um dos maiores clubes literários virtuais pertence à escritora Helena Magalhães, que, todos os meses, escolhe vários livros de diferentes géneros. O Book Gang (@hmbookgang) tem mais de 6 mil seguidores e é um caso sério na rede nacional.

HM BOOK GANG

Reese Witherspoon

REESE WITHERSPOON

James Trevino

JAMES TREVINO

Elle (@theartfulelle) acompanha as suas opiniões literárias com lattes verdadeiramente artísticos, cujos desenhos são representações das obras que lê, desde Jack Torrance de Stephen King, à indumentária características das mulheres em A História de Uma Serva, de Margaret Atwood.

Mas também há aqueles que preferem não usar nada se não o livro em si, como é o caso de Uli Beutter Cohen, criadora do projeto Subway Book Review (@subwaybookreview), que decidiu documentar opiniões de leitores no metropolitano de Nova Iorque, que depressa se expandiu um pouco por todo o mundo e que atualmente conta com colaboradores de Berlim, Laore e México.

Um movimento digital que está a mudar a forma como se lê

A grande maioria destes influenciadores literários não recebe dinheiro pelo trabalho que faz, ao contrário do que acontece com o segmento dos cosméticos e da moda, por exemplo. Geralmente, as contrapartidas resumem-se à oferta de exemplares dos livros – muitas vezes quando estes estão ainda em fase de pré-lançamento.

Para lá das imagens bonitas, dos filtros, das hashtags e das stories, subjaz o nobre propósito de grande parte dos representantes desta comunidade, o de contagiar os seus seguidores com uma paixão que ultrapassa as épocas e sobrevive às modas: a literatura.

Books Turn you on

@booksturnyouon

@CLUMSY.WORDS

silkreads

@silkreads

Para seguir:

Se ficou curioso com este universo livrólico, deixamos-lhe outras sugestões. 

Kathleen Crowley (@clumsy.words) brinca com os livros e oferece-lhes a arte que vai para lá da fotografia. 

Silke Mølgaard (@silkreads) é a escolha ideal para um feed acolhedor, repleto de plantas e estantes de fazer inveja. 

Cátia Vieira (@booksturnyouon) traz o orgulho nacional bem para a praça central do Instagram, com opiniões fundamentadas e um bónus irresistível: nas suas muitas viagens, há sempre tempo para visitar outras livrarias, como a Shakespeare & Company, em Paris.

Artigo disponível na revista Somos Livros de dezembro de 2019.
Sónia Rodrigues Pinto
Sónia Rodrigues Pinto
Coordenação Editorial: Marisa Sousa