Islândia: O país onde cada pessoa tem um livro no estômago

Islândia: O país onde cada pessoa tem um livro no estômago

Desde o primeiro Relatório Mundial da Felicidade, publicado pela ONU em 2012, que a Islândia integra o TOP 10 dos países mais felizes do mundo. Entre as razões que a levaram a ocupar esta posição no ranking mundial, acreditamos que poderá estar a forte ligação do povo islandês aos livros e à leitura – motivo pelo qual há até quem proclame a leitura como desporto nacional deste país

Apesar dos cerca de 330 mil habitantes e de ter um dos mercados literários mais pequenos da Europa, é um dos países do mundo onde o amor pelos livros é mais cultivado. Esta afinidade pelos livros poderá ter as suas raízes numa tradição que vem dos tempos medievais, conhecida como kvöldvaka, e que, essencialmente, descreve um serão típico, de uma família islandesa, durante as condições rigorosas do inverno nórdico. Estando muito frio para sair de casa, reuniam-se todos os membros da família numa sala comum, conhecida como baðstofa e, aí, contavam histórias ou recitavam poesia para passarem o tempo

As histórias que contavam – conhecidas como as sagas islandesas – estiveram na origem de uma tradição literária riquíssima, consolidada em 1955, com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao poeta e romancista Halldór Laxness, e novamente em 2011, com a distinção da cidade de Reiquejavique como Cidade da Literatura, pela UNESCO. 

Talvez por isso, este seja um dos países com mais leitores per capita. De acordo com um estudo conduzido pela Universidade de Bifröst (Reiquejavique), 50% dos islandeses leem pelo menos 8 livros por ano, e 93% da população lê pelo menos um, o que é a percentagem mais elevada de todos os países nórdicos. Para além de uma grande comunidade de leitores, a Islândia tem ainda uma das maiores comunidades de escritores. Segundo as estatísticas, um em cada 10 islandeses publica um livro, existindo, por essa razão, uma expressão em islandês que diz, traduzida à letra, que cada pessoa tem um livro no estômago (að ganga með bók í maganum)

Islândia: O país onde cada pessoa tem um livro no estômago

Durante a II Guerra Mundial, o racionamento de bens e os impostos elevados nos produtos importados levaram a que o papel fosse um dos poucos recursos que ainda existia em abundância na ilha. Por essa razão, os livros tornaram-se uma escolha popular como presente para oferecer nas festividades. Com o tempo, o grande aumento na compra de livros na altura do Natal fez com que os editores começassem a publicar a maioria dos livros nos dois meses que antecedem a época natalícia, levando a um fenómeno a que os islandeses chamam de Jólabókaflóðið – traduzido literalmente como inundação de livros do Natal.

A meio de novembro, todas as famílias islandesas recebem em casa o Boletim de livros – ou Bókatíðindi –, um catálogo publicado anualmente pela Iceland Publishers Association, que lista as novidades literárias e outros livros populares, para que possam escolher os seus presentes. O frenesim em volta dos livros durante este período é tal que, durante dois meses, quase todos os dias existem festas de lançamento em livrarias, sessões de leitura em pubs e cafés, ou palestras com autores.

Mas os islandeses não trocam apenas os livros na véspera de Natal. Depois de abrirem os presentes, passam a noite a ler os livros que receberam, enquanto desfrutam de uma bebida quente. Talvez seja nisso que resida o segredo islandês para a felicidade. Porque embora não possamos comprar felicidade, podemos comprar livros – o que é quase a mesma coisa.

Beatriz Sertório
Coordenação Editorial: Marisa Sousa