Janeiro 27

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75 Anos da Libertação de Auschwitz | As Gémeas que Sobreviveram ao Anjo da Morte

Eva e Miriam Mozes Kor à direita / Fotografia: Galerie Bilderwelt

Eva e Miriam Mozes nasceram em 1934, na Roménia. Em 1944, quando tinham apenas dez anos, a família foi levada para o campo de concentração de Auschwitz. Por serem irmãs gémeas, foram selecionadas para as experiências feitas com seres humanos, realizadas sob a direção do médico nazi Josef Mengele. Ao contrário da maioria das crianças que foram submetidas a essas experiências, elas sobreviveram.

“Choravam, empurravam-se; os cães ladravam. Virei-me ao contrário e tentei perceber o que era aquele lugar. Nunca tinha visto um lugar assim. Quando me voltei, percebi que o meu pai e as minhas duas irmãs mais velhas tinham desaparecido. Nunca mais os vi… (…) por sermos gémeas idênticas, tão facilmente detetáveis na multidão de sujos e exaustos prisioneiros judeus, Miriam e eu tínhamos sido escolhidas. Em breve, ficaríamos
frente a frente com Josef Mengele, o médico nazi conhecido como Anjo da Morte. (…) Tínhamos apenas dez anos.

(…) Soube mais tarde que o Dr. Mengele queria descobrir o segredo dos gémeos. Um dos objetivos das suas experiências era aprender a criar bebés louros e de olhos azuis em múltiplos números para aumentar a população alemã. (…) Nós éramos as suas cobaias humanas. Para mim, uma das coisas mais desumanizadoras do campo era a nudez. O Dr. Mengele entrava e saía para supervisionar. Outros médicos e enfermeiros de bata branca, que eram reclusos ou prisioneiros como nós, observavam-nos e tomavam notas. Naqueles dias, não sabíamos para que serviam as experiências ou o que nos estavam a injetar. Soubemos mais tarde que o Dr. Mengele injetava propositadamente alguns gémeos com doenças perigosas e potencialmente fatais, como a escarlatina, seguindo-se depois injeções de outra coisa para ver se isso curava a doença. Algumas injeções eram tentativas de alterar a cor dos olhos.” Eva Mozes, in As Gémeas de Auschwitz.

Ao longo da sua vida, Eva e Miriam sofreram sérios problemas de saúde. Eva passou por múltiplos abortos espontâneos e foi afetada pela tuberculose. O seu filho teve cancro. Os rins de Miriam nunca se desenvolveram completamente e ela acabou por falecer em 1993, debilitada por uma rara forma de cancro.

Em 2015, aos 81 anos, Eva aceitou testemunhar contra Oskar Groening, sobre quem recaiam acusações de cumplicidade no extermínio de 300 mil pessoas. Apelidado de contabilista de Auschwitz, assumia a tarefa de recolher o dinheiro e os bens dos corpos desesperançados que chegavam ao campo de concentração. Inesperadamente, no dia do julgamento, Eva e Oskar trocaram um aperto de mão. Eva tomou a corajosa decisão de perdoar publicamente os nazis pela sua infância traumática e despertou a atenção do mundo, originando mais tarde o documentário Forgiving Dr. Mengele. Em 1995, Eva fundou a CANDLES (um acrónimo de Children of Auschwitz Nazi Deadly Lab Experiences Survivors), na tentativa de localizar outros gémeos submetidos às mesmas atrocidades. Eva morreu no dia 4 de julho de 2019, aos 85 anos, mas deixou uma poderosa mensagem que continuará a ecoar:

“Nunca desistam de vocês nem dos vossos sonhos, pois tudo de bom é possível na vida. Julguem as pessoas pelos seus atos e pelo seu caráter. Perdoem os vossos piores inimigos e perdoem todos aqueles que vos magoaram – isso curará a vossa alma e libertar-vos-á.”

Marisa Sousa
Coordenadora Editorial